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“Não quero que penses mais nela. Acabou-se. A polícia já a levou. Agora vamos ver o que a justiça lhe reserva. Não lhe desejo mal nenhum. Só espero que pague pelo que fez. O desfecho podia ter sido muito mais trágico…”
Aquelas últimas palavras do Lourenço, seguiram-se ao abraço mais apertado do mundo. Ele estava comigo de corpo e alma e com a convicção de nada nos iria separar. Muito menos uma desequilibrada. Não tardaria a que a Verónica fosse apresentada ao juiz que decidiria como seria a pena a aplicar.
Estava morta para sair do hospital. Não tinha a menor razão de queixa, porque o Lourenço fez questão de me levar para o melhor Hospital da capital. Nenhum cuidado me faltava. As enfermeiras não me deixavam sossegada, principalmente depois do segundo incidente com a Verónica.
E eu amava aquele homem de uma forma nunca antes vivida. Tinha plena noção de que era com ele que eu queria passar o resto dos meus dias. Que era com ele que eu queria realizar o sonho de ser mãe. O Lourenço era um companheiro e tanto. Com o seu feitio tão particular, com os seus defeitos acentuados, mas de uma amabilidade extrema, que eu nunca tinha visto em ninguém. Acho que ele teve a lição de vida dele ao perceber com que tipo de pessoa partilhou a casa, uma parte da sua vida e principalmente, a sua família.
Nessa tarde o pai do Lourenço veio visitar-me. Fez questão de nos ajudar nesta fase mais conturbada.
“Minha filha, como foi acontecer uma situação destas. Como é que te sentes?”
E eu desato a chorar no ombro dele. De repente vi o meu pai, sempre tão atencioso com a sua menina, como ele dizia. Muitos anos tinham passado desde a sua morte, mas são feridas que nunca saram. A perda dos pais, quando são a nossa base mais sólida, é um buraco que nunca fecha. Uma ferida que nunca cicatriza. E há momentos em que dói. Dói muito. Mas eu sabia que tinha ali uma nova família, pronta para cuidar de mim. Com o melhor amor do mundo. O que valia por tudo…
“Senhor António, foi o susto da minha vida. Juro-lhe. Eu que já lidei com tanto psicopata, com tanto criminoso, nunca tive tanto medo. Principalmente temi pela vida do seu filho. Que estava a proteger-me. O que o senhor havia de pensar se lhe acontecesse alguma coisa? Não me conformaria… O pior foi da segunda vez que ela tentou acabar comigo. A sorte foi que entraram aqui a tempo de a intimidar. Posso dizer que a minha vida já teve por um fio. Mas agora já está tudo bem. Agradeço muito a sua vinda. Principalmente porque o seu filho também precisa muito de si.”
“Oh filha, nem quero imaginar o sufoco em que tiveste metida. Sabes, ela nunca me inspirou muita confiança em determinadas situações. Sentia que ela não era completamente honesta. Os olhos dela não brilhavam, assim como os teus brilham quando falava do meu Lourenço. E isso às vezes entristecia-me. Porque eu só queria uma rapariga que o amasse. De verdade. E que o fizesse feliz. Mas sabes? Desde que soube que ele estava contigo que eu tive uma grande fé. As coisas só podiam melhorar.”
E apertou-me a mão, gasta de trabalho árduo. Devolvi-lhe o aperto e pisquei-lhe em olho em sinal de descanso. Ele podia ficar tranquilo, porque aquele amor era realmente puro e honesto.
A enfermeira interrompeu-os porque estava na hora de lanchar. O Lourenço fez questão de me ajudar. Ela não se importou. Bebi um iogurte e comi umas bolachas integrais. Nada de especial, em hospitais, os menus são sempre assim. Um pouco sem sal. Sem sabor. Mas a paciência teria de ser agora uma grande amiga. Quanto mais depressa tivesse recuperada, mais cedo podia ir para casa. Mais dois dias e penso que podia ir. Se tudo corresse bem. Depois voltaria para retirar os pontos.
Estivemos mais um bocado à conversa com o pai do Lourenço. Ia preparar tudo em casa para me receber lá para a minha recuperação. Vi-o emocionado a falar de mim. O que me deu também um misto de alguma angústia e muita alegria. “A casa é tão grande filha. Faço toda a questão de te receber.” O facto de me chamar filha demonstrava o carinho que sentia.
Entretanto o Senhor António foi para casa. O Lourenço não quis ir. Entretanto apareceu a Ana Maria e o Diogo ao final da tarde. Levaram-no a jantar qualquer coisa no refeitório do Hospital, porque era escusado tentarem dissuadi-lo a sair dali. Mesmo depois de levarem a Verónica detida. Senti que ele se culpava pela segunda agressão. Por ter ido a casa descansar. Se não tivesse ido, nada daquilo se tinha passado… Mas era parvoíce, porque eu estava absolutamente descansada quanto a ele.
Quando saíram para jantar, as auxiliares levaram-me para me darem aquele banho que não é banho. É uma espécie de limpeza com compressas. Por partes… Agora as pernas e as partes mais íntimas, depois o braço que estava destapado, depois o peito, pescoço e cara… Uma forma de me manterem lavada… O meu cabelo já apresentava algum sinal de sujidade, e eu até tinha pedido ao Lourenço para me trazer o meu shampoo e o creme. A enfermeira prontificou-se a lavar-mo. O que me deixou muito mais bem-disposta. Sempre tive uma estima enorme pelo meu cabelo. Sempre o tratei muito bem. Depois da limpeza deram-me também o jantar. Um peixinho cozido ao vapor com legumes. Sem vestígio de sal. Confesso que não gosto do comer muito temperado, mas aquele estava mesmo ao natural… Fiz um esforço e lá comi tudo. Uma gelatina de sobremesa e estava tratada.
Não tardaram a vir trazer o Lourenço, já eu estava muito mais animada.
“Já tomei banho Amor. Já me lavaram o cabelinho e o corpo que está “destapado”…” Ele sorriu… deu-me um beijo demorado na face… Segredou-me ao ouvido… “És linda de qualquer maneira. Eu amo-te muito!”
“Eu também te amo. Mesmo”. Sorrimos um para o outro e vi que a Ana Maria e o Diogo falavam baixinho. Provavelmente tinham alguma coisa para nos dizer. Andávamos desencontrados há algum tempo.
“Temos uma coisa para vos contar. Era segredo durante mais uns tempos, mas como têm acontecido tantas coisas más, quero dar uma notícia boa e feliz. Eu e o Diogo estamos a pensar casar…”
Eu fiquei estática. A Ana Maria, casar? Mas sim, era uma notícia muito feliz.
“Que óptimo. Só espero que dê tempo de eu recuperar. Não quero ir cheia de cicatrizes ao teu casamento…”
“Claro que sim. Não vai demorar muito tempo. Daqui a dois meses, mais coisa menos coisa. Gostava que tu e o Lourenço fossem os meus padrinhos. O Diogo vai ter a Margarida e o Ricardo. Sabes que não quero grandes coisas. Somos poucos. É só mesmo para oficializar a nossa relação. E ter presentes aquelas pessoas que são para toda a vida, como vocês…”
“Oh Ana Maria, não me faças mais chorar hoje. Já chega. Estou muito feliz amiga. Se há alguém que o merece és tu. Definitivamente. Claro que aceitamos. Com o maior prazer e orgulho.”
O Diogo sorria com o olhar. Quando chegou deu-me um abraço sentido. Vi que ele ficou triste com o que me tinha acontecido. Nem sempre éramos os amigos mais compatíveis, mas quando alguma coisa acontece dentro do nosso núcleo, afecta-nos de uma forma profunda. Senti que foi isso que ele me transmitiu.
“Parabéns Di. Estou muito feliz por ti. E tenho um agradecimento especial a fazer-te. Muito obrigada por teres colocado o Lourenço de novo na minha vida. Agradeço-te com todo o amor que tenho por ele. Obrigada.”
O Lourenço olhou para mim sem saber o que dizer. Sem pronunciar uma única palavra. Deu-me a mão e ficamos ali assim. A contemplar aquele sentimento, que era de longe o melhor de todo o sempre.
Depois da novidade, dos parabéns e agradecimentos, a Ana Maria e o Diogo foram embora. Passado pouco tempo a Margarida mandou mensagem.
“Como está a minha doentinha mais linda? O Ricardo manda as melhoras e beijinhos. Manda também um cumprimento especial ao Lourenço. Adoro-te muito, sabes disso. Até amanhã.”
Pedi ao Lourenço que lhe respondesse. Tinha sido um dia demasiado longo e a minha cabeça já não aguentava muito mais… Sentia-me esgotada.
Acabei por adormecer com o Lourenço a fazer-me festas na cabeça.
Dois dias depois estava de volta a casa. O Senhor António tinha o quarto cheio de malmequeres à minha espera. Fiquei tão feliz a ver aquele cenário… Foi realmente mais do que um pai podia ser, apenas por aquela atitude. Apesar de eu saber que o Lourenço estava por trás disso.
A minha mobilidade estava ligeiramente reduzida com o braço ao peito. Mas eles não me deixavam fazer nada. Tinham feito grelhados com batatinha frita, arroz e uma salada maravilhosa. Estavam atentos ao que eu dizia quando estava internada e comia aquelas “coisas” sem sabor nenhum, ao mesmo tempo que clamava por uma carninha grelhada, um peixinho assado no forno, e eles foram uns queridos. Prepararam o que mais me apetecia comer. Mas para ser honesta, qualquer coisa feita em casa era melhor do que o que andei a comer no hospital.
Soube-me pela vida. De repente senti-me uma menina pequenina rodeada de atenções. O meu prato tinha a carne toda cortadinha, sem ossos… Só não me deu o comer na boca porque eu não quis… Apesar de tudo, sentia-me tão feliz. Com uma paz imensa. Como se aquela gente fosse a minha família de sempre.
O Luís iria passar lá por causa ao final da tarde. Não sei se levava a Bárbara com ele. Ela ainda não podia passar por grandes coisas. Ele tinha ficado muito preocupado por não poder estar ao pé de mim quando fui para o hospital. Mas eu compreendi perfeitamente. Ele tinha de cuidar da mulher, que precisava de todos os cuidados, ainda mais do que eu, que graças a deus só tenho um braço ao peito e um penso na face… Dali a uma semana iria tirar os pontos. Esperava ansiosamente que estivesse tudo cicatrizado para poder, com a maior brevidade possível, voltar aos meus pacientes e à minha vida.
Depois do almoço, o Lourenço perguntou-me se queria ir tomar um café como era hábito fazermos. Mas de repente, senti um bloqueio nas minhas pernas. Tive medo…
“Tenho medo Lourenço. Não te sei explicar. Mas sair deste portão expõe-me demasiado. Eu sei que ela está detida, mas e se ela consegue fugir? Ela jurou que nós não íamos poder ficar juntos. E eu tenho medo. Porque não quero ficar sem ti. Percebes?”
“Claro que entendo. É normal sentires isso. Ainda é muito recente. Mas não temos de ir. Ficamos aqui. Nós até temos uma máquina. Tenho uma ideia, dá-me a mão e vem comigo lá dentro tirar os nossos cafés. Ajudas-me?”
“Com todo o prazer…”
Ele deu-me a mão e puxou-me pra ele. O Senhor António tinha ido beber o café à rua. Beijamo-nos com o maior sentimento de partilha que podia haver. Nós falávamos com o olhar. Era o que eu mais apreciava nesta relação. O facto de termos tanta cumplicidade, tanto afecto. Entendíamo-nos mesmo em silêncio, quando os nossos olhos se tocavam. Sem que uma única palavra fosse precisava para decifrar a mensagem.
Ficamos a namorar um bocado enquanto a máquina aquecia um pouco. Pedi-lhe para bater um pouco de natas, apetecia-me misturá-las no café. E ele fez-me a vontade. Com um sorriso glorioso, de prazer ao satisfazer-me um pedido e um desejo. Admirava estes gestos dele. Nunca me fez nada contra vontade. Tinha prazer em realizar as coisas que eu lhe pedia. Eu sentia que era nas pequenas coisas que mais afinidade tínhamos.
Depois daquele café cheiinho de natas que estava maravilhoso, fomos para o sofá ver um filme que estava a dar na televisão. Eu como não descansava como devia ser há mais de quatro dias, acabei por adormecer no colo do Lourenço. Ele insistiu para eu me deitar com a cabeça no colo dele, sempre tinha o braço mais levantado. Com tanto mimo e atenção deixei-me levar pelo sono.
Quando senti a chave na porta de casa, abri os olhos e fiquei alerta. Ele percebeu o meu estado e tentou acalmar-me. É só o meu pai. E parece que o Luís veio com ele.
Sentamo-nos os quatro à conversa na sala. A Bárbara era a minha primeira prioridade na conversa.
“Olá meu querido. Como estás? E a nossa Bá?”
“Bons olhos te vejam amiga, nem sabes o susto que me pregaste. Mas hoje estás com boa cara. Falei com a Margarida no dia que foste internada e ela estava assustadíssima. E não é para menos. Levar um tiro de uma louca…”
Fez-se silêncio. O Luís percebeu que o assunto era deveras delicado. E preferíamos não referir a origem daquele meu estado. Eu começava a pensar que estava a criar um trauma. Provavelmente iria precisar de ajuda. Talvez um colega me pudesse receber. Não podia permitir que se tornasse obsessivo, este meu medo pela Verónica.
Ao que o Luís referiu, a Bárbara iria começar a fisioterapia dentro de dias. Tem algumas dificuldades com os membros. Quando se cansa mais, tem de parar, porque tem de respirar com muito cuidado. Tem de aprender praticamente a fazer tudo de novo.
“Mas eu tenho muita força em ajudá-la. O nosso Amor manteve-a viva. E isso para mim é tudo!”
Disse o Luís emocionado… Dias difíceis aqueles, em que víamos a Bárbara mais morta que viva. E de repente ao pensar nisso, lembrei-me da minha força nesse momento. Eu é que enfrentei todo aquele cenário porque o Luís não estava preparado para isso. Mas agora, também eu precisava de ajuda…
Um mês depois…
A Ana Maria andava super entusiasmada com os últimos preparativos para o casamento.
Eu já tinha corrido uma série de lojas e ainda não tinha encontrado nada que gostasse. Mas o senhor António tinha uma amiga especial, que era costureira. E convenceu-me a ir lá ter com ela. Que me daria uma ideia do que eu podia levar. Podia confeccionar-me um vestido ao meu gosto… E eu acedi ao seu pedido, porque já estava mesmo farta de procurar, sem qualquer sucesso. Aproveitava para fazer uma surpresa ao Lourenço, levando algo que ele não conhecesse. Queria surpreende-lo. Queria que se orgulhasse de mim. Não pela roupa que trazia vestida, mas sim pela mulher que eu era. Ainda visitei um colega umas três vezes, de forma a sentir-me mais à vontade relativamente ao medo da Verónica voltar a procurar-me. O julgamento dela estava marcado dali a uns meses, mas dada a gravidade da situação ela ficou em prisão preventiva na cadeia de Tires.
Dias depois recebemos a noticia de que a mulher do Alberto tinha engendrado um plano para o matar. Tudo para poder usufruir do Seguro de Vida dele. Ficamos devastados com a noticia. Mas ao mesmo tínhamos plena noção de que ele se deixou levar pelo amor que sentia. Porque ele sabia perfeitamente como ela era. Arranjou dois homens que o esfaquearam em plena rua. E descobrimos porque apesar de calculista, não aguentou os pesadelos que a perseguiam todas as noites e confessou o crime. Denunciando-se a ela e aos cúmplices. Curioso ou não, sempre achei que ela e a Verónica tinham algumas coisas em comum. Agora poderiam alimentar bem essa amizade, visto que estavam as duas na mesma prisão. Quem sabe a partilhar a mesma cela.
Foram dias tristes e dolorosos. Um funeral e o casamento da Ana Maria algum tempo depois. Mas tudo correu pelo melhor. Uma cerimónia pequenina, mas muito feliz. Com muita alegria e amor. Era assim que um dia gostava de me casar. Sem aparências ou segundas intenções. Uma união exactamente pelo motivo que tem de ser. Porque as pessoas se gostam e querem partilhar as suas vidas.
A D. Aurora, a costureira amiga do Senhor António, fez-me um vestido lindo. Extremamente simples, mas que me ficou muito bem. O Lourenço quando me viu sair do quarto assim vestida sorriu. Escolhi uma seda selvagem. Cor de Rosa clarinho.
“Estás ainda mais linda. Adorei. Muito bonito o teu vestido.”
“Obrigada. Não queria que passasses nenhum tipo de vergonha comigo.” Disse-lhe eu a rir…
Ele encolheu os ombros e respondeu.
“Mesmo que fosses de fato treino ao casamento eu nunca me envergonharia de ti. Jamais. Vales por tudo o que és. E não pela roupa que vestes… mas digamos que este vestido marca uns pontinhos a teu favor.”
Rimos os dois juntos abraçados. Mas nesse dia eu senti o Lourenço ligeiramente mais nervoso… Senti que havia algo que ele não estava disposto a contar de animo leve.
Mas deixei passar. Podia não ser nada.
Quando chegamos a casa da Ana Maria, já lá estava o fotógrafo à espera que eu a fosse ajudar a vestir. Ela pediu ao pai do Diogo que a levasse ao altar e ele prontificou-se logo. A Ana Maria não quis casar na Igreja. Escolheu uma quinta muito bonita. Simples que só visto, mas um cenário digno de um livro de conto de fadas, em que a princesa é salva pelo príncipe. Mas se havia alguém que o merecia, era sem dúvida a Ana Maria.
Lá nos despachamos de casa, enquanto o Diogo, mais do que nervoso nos esperava na quinta. A Margarida e o Ricardo iam mandando mensagem para saber em que pé estavam as coisas. Tudo controlado, dizia eu…
O meu braço não estava com o melhor aspecto do mundo. Nem eu conseguia fazer grandes esforços, mas pedi à minha cabeleireira que me deixasse o cabelo solto, para disfarçar as marcas que ainda se notavam na minha pele…
O pai do Diogo estava orgulhoso de levar a Ana Maria até ao seu filho. Gostavam muito dela. E ela deles. Sempre nos ajudaram muito. Sempre estiveram presentes, quando família era coisa que nem eu nem a Ana Maria tínhamos em grande quantidade. Eles tinham-nos acolhido sempre como se fossemos realmente parte integrante da vida deles.
Ela estava linda. Um vestido cor de champanhe, sem grandes brilhantes ou rendados. Nisso éramos muito parecidas. Brilhávamos pela simplicidade que nos caracterizava. O Diogo estava emocionado ao ver a noiva de braço dado com o seu pai.
Pedi ao Luís que levasse a minha máquina e fotografasse enquanto eu estaria no altar com eles a cumprir religiosamente o meu papel de madrinha. Depois tiraria eu algumas fotografias. Nunca perdi esse meu gosto pela fotografia. O Lourenço também gostava. Havia dias em que acordava inspirado e fazia logo sessões pela manhã, seguidos de umas montagens. Já tínhamos vários quadros no nosso quarto com fotografias nossas. Nada de complicado. Eram apenas os nossos momentos felizes. A preto e branco. Eu adorava este tipo de recordações.
O dia passou muito feliz. E quando o sol se estava a pôr na quinta que era virada para o Rio Tejo, o Lourenço foi falar com o Diogo e o Luís e juntaram as pessoas todas à minha volta.
Achei aquilo muito estranho. Mas esperei para ver o que se seguia.
A Ana Maria trouxe um bouquet de malmequeres brancos, verdadeiro, como eu sempre pensei ter se um dia me casasse e entregou-mo. Nada me disse. Por trás dela aparece o Lourenço, com um joelho no chão e pergunta-me se quero casar com ele. Ali, naquele momento, naquela hora. Eu tremi de frio, de medo, de nervoso miudinho. O que poderia eu dizer?
“Eu também gostava de estar vestida de noiva…” Disse eu a rir…
“Mas isso não é problema. Eu pensei em tudo, sabes?”
“Pensaste?! Como assim?”
“Combinei tudo com a D. Aurora e ela fez-te um vestido simples, para poderes casar comigo?”
Estava pasmada com tanta surpresa. Com tanta alegria naquele dia. Acedi de imediato a ir à casa de banho vestir o meu vestido de noiva. Quando lá estava, até a minha cabeleireira apareceu para que nada pudesse estar menos bem. Depois de me vestir, lembrei-me que nem sequer lhe tinha dito que Sim. Que queria passar o resto da minha vida com ele. Que me fazia sentir feliz, todos os dias que tínhamos passado juntos. Que o amava desde o primeiro dia que os meus olhos tinham encontrado os dele.
Quando saí para fora, vestida de noiva e linda que só visto… Meu Deus, nunca me tinha sentido tão linda na minha vida. Estava completa. Senti que muito pouco me faltava. Tinha uma pessoa excepcional ao meu lado que me apoiava e que se preocupava connosco.
Dei o braço ao Senhor António e pedi-lhe que me levasse até ao seu filho, com quem eu queria casar. Ele sorriu e beijou-me a face. Senti que estava nervoso, tal era a responsabilidade de levar a noiva do filho…
Antes de dar a mão ao Lourenço, pedi a todos que ouvissem o que eu tinha a dizer…
“Quero dizer-te perante estas pessoas todas que Sim. Quero casar contigo. Quero que passemos o resto dos nossos dias juntos. Mesmo que haja birras, mesmo que tenhas ciúmes (e eu também – porque sei que vou ter), mesmo que muita coisa haja entre nós para nos separar (e tu sabes que temos um caminho longo a travar neste aspecto), mesmo que todo o mundo conspire contra nós, é a ti que eu quero para casar. Para seres o meu marido. Para seres o pai dos meus filhos. Espero não te desiludir em nada, porque sei que tenho dias em que sou mimada e que tenho crises de existência. Se escolheste casar comigo, tens de levar a embalagem completa. Mas no final de tudo, acho que vai compensar. Porque te amo. Porque sem ti já nada tem o seu verdadeiro sentido. É esta vida exactamente que eu quero ter. E não outra. Não há mais nada que eu queira do que ficar aqui. Sempre ao teu lado.”
Ele encheu o peito de ar e abraçou-me. Apertou-me a mão com força. E o conservador que esperasse que aquelas lamechices terminassem…
Casámos no dia 17 de Julho de 2008, junto com a Ana Maria e o Diogo.
O Luís e a Bárbara casaram no dia 25 de Setembro do mesmo ano.
No dia 28 de Fevereiro do ano seguinte soube que estava grávida. O Lourenço estava tão feliz que redobrou os cuidados que tinha comigo. E ele já tinha tantos. Dois meses depois da primeira ecografia, soubemos que, ao contrário do que seria de esperar, não iríamos ter um bebe mas sim dois. Eram gémeos.
No mesmo dia desta notícia saiu a sentença da Verónica, tinha sido condenada a nove anos de prisão efectiva. Muitas vezes ainda me recordava dela. Com pena. Porque no fim de contas teve um desfecho muito triste. Mesmo saindo da prisão, o retomar da vida nunca mais será o mesmo. A mulher do Alfredo, foi condenada a 25 anos sem possibilidade de liberdade condicional, apesar de ter confessado o crime, a forma como o planeou, foi demasiado horrenda.
No dia que completámos um ano de casamento, soubemos que íamos ter um menino e uma menina. O pai escolheu o nome do menino e eu escolhi o da menina…
Nesse mesmo dia, a Ana Maria também soube que ia ser mãe. Uma verdadeira surpresa. Tinha sido a pessoa a quem a vida tinha apresentado mais mudanças e alterações. Mas ela estava muito feliz no seu novo papel de esposa e futuramente o de mamã...
No dia 8 de Agosto de 2009, foi o dia do casamento da Margarida e do Ricardo.
Nesse dia, já com uma barriga imensa e um calor abrasador, revivi o dia do meu casamento. Eles escolheram o mesmo lugar para fazer a festa deles.
Desta vez fui eu a fotógrafa de serviço. Adorei fazer aquele trabalho.
Era esta a minha verdadeira família.
No dia 29 de Novembro nasceu a Maria Margarida e o Ricardo Lourenço. De boa saúde e com os pais mais babados e felizes do mundo…
FIM